SEMPRE OS CÃES EM MINHA VIDA…

Desde muito cedo sempre tive cães em minha vida, quase sempre mais de um…Houve momentos de exagero…Eu devia ter mais ou menos uns cinco anos e meu pai havia sido presenteado por um amigo com um lindo casal de “perdigueiros”…BUG e DIANA me fascinaram desde que chegaram em casa. Embora morássemos em casa grande com espaçoso  quintal, minha primeira “providência” foi colocá-los para dentro …Meus pais tentaram argumentar, mas fiz prevalecer minha condição de filho único e um tanto “mimado”…No baú de minha mãe, encontrei um acolchoado, que na época faziam questão de chamar de “edredon”, num pedante “francesismo”, muito “chic”  na década de 50…

Mas, os meus novos “parentes” lá estavam “nababescamente” instalados no mais fino “edredon” de minha mãe, bem ao lado de minha cama…

O absolutamente previsível aconteceu: DIANA no cio, cruzamento e exatos 62 dias depois uma linda ninhada de 10 cachorrinhos incrivelmente iguais todos do mesmo tamanho, gordos, fortes…

As rações caninas ainda não haviam tomado conta do mercado…Os cães se alimentavam do que sobrava das refeições e, quando não sobrava, simplesmente não comiam…

Naqueles tempos, as acompanhantes infantis não eram chamadas de “BABÁS”, eram as “PAJENS”….Minha queridíssima Irma tinha a missão única de me acompanhar as 24 horas do dia…Era uma pessoa maravilhosa, meiga, paciente de uma bondade incomum…Nessa ocasião tinha pouco mais de 18 anos..Descendente de italianos, em perfeito cruzamento com caboclo, resultou em um tipo muito bonito, de pele clara mas queimada, preservando os dotes físicos das italianas… Não faz muito tempo, soube que ainda vive, na companhia de uma filha, que se casara com um fazendeiro do Paraná…Que DEUS a proteja sempre…

Mas, a minha Irma era também apaixonada por cachorros…cúmplice e parceira em todos os exageros na criação do BUG e da DIANA…responsável principalmente pela alimentação…Passávamos horas na cozinha preparando a comida…Morávamos numa cidade do interior de São Paulo, ITAPORANGA, bem na divisa com o Paraná.

Logo pela manhã já “discutíamos” o “cardápio”…Os ingredientes conseguíamos com a maior facilidade.O arroz, buscávamos direto na “maquina beneficiadora”,que ficava no final da rua de minha casa, alguns legumes tínhamos no quintal, principalmente cenoura, que a Irma tinha lido em uma revista  que fazia muito bem para o pelo dos animais…A carne buscávamos no açougue do Sr. Idio Abdala,  amigo de meu pai, que nos dava generosas quantias de “retalhos” de carne de primeira…O fubá pegávamos  na despensa de minha mãe…Não sei quem disse a Irma que os animais precisavam de outras vitaminas… Não deu outra : a farmácia do Sr. NOZOR,também muito amigo de meu pai, não ficava longe… aliás no interior nada fica longe, com um detalhe : em todos os lugares “tínhamos conta”, ou seja, se pagava mensalmente…Em conversa com o farmacêutico, que as vezes era “médico”, veio a resposta : “Emulsão de Scot”. Os mais velhos se lembrarão… um vidro branco, com a figura de um homem carregando um bacalhau nas costas…lembram ?…

Levamos um vidro grande  e “colocamos na conta”…

A “gororoba” passou a ser enriquecida com quatro colheres de chá do EMULSÃO de SCOT…

Nossa casa era grande , antiga, quartos enormes e um quintal que mais parecia uma “chácara”… Meu pai, por receber sempre muitos amigos, fez um “puxadinho” onde havia uma churrasqueira, um forno à lenha e um grande fogão também à lenha…Era o nosso espaço durante muitas horas do dia…Uma bacia de alumínio, de “falnders”, das grandes,  era a nossa “panela”, uma colher de pau grandona possibilitava mexer a “gororoba”…Todo processo levava umas duas horas e mais duas para esfriar. A “faina” começava por volta de 8 horas e, ao meio dia, a turminha toda estava comendo e nós nos deliciando com a algazarra…Os pequenininhos já estavam começando a comer mas não alcançavam a borda do “bacião”…A DIANA não tinha dúvidas : colocava-os dentro da bacia…Já imaginaram como saíam de lá?… Novamente a paciente e alegre Irma, com um pano molhado, limpava um por um…

Terminada a guerra, era a minha vez…

Meus pais , em função do trabalho, almoçavam IMPRETERIVELMENTE  ao meio dia…eu almoçava com a Irma depois…

O BUG ficava solto no quintalzão e a DIANA se “recolhia” com a “meninada”…

Mas a “faina” não se resumia apenas à alimentação…A “labuta” tinha início por volta de 6:30, 7:00 horas… Era a hora da limpeza do meu quarto…

Antes que a outra empregada chegasse a Irma limpava tudo, trocava o forro da caixa dos “menininhos” passava um paninho úmido em cada um e depois passava em todo quarto um “produto” de sua invenção.. vai a receita : dois litros de água, meio litro de álcool e um pouco de lavanda de alfazema(lembram?)…”O álcool  desinfeta, a água lava e a lavanda perfuma”… Sentenciava a querida Irma!!..

Meu quarto sempre estava(apesar de tudo)  limpo e cheiroso… minha mãe não entendia como !!!…

A ninhada foi crescendo…Eu ia completar meus seis anos no próximo 17 de março e a “meninada” se aproximava dos três meses…

Agora era a hora !!!…

Meu pai havia se comprometido a doar para  amigos alguns  filhotes…

Numa noite maldita, de dentro do meu quarto, que ficava ao lado da grande sala, onde minha mãe bordava e ele relatava alguns inquéritos…( estava esquecendo: meu pai era o Delegado de Polícia Titular da cidade… e costumava levar “serviço” para casa..) ouvi o seguinte dialogo entre os dois :…” Lilí ( o apelido de minha mãe) como vamos fazer para dizer ao João sobre as doações dos cachorrinhos?”…

—-“Nem me fale !!.. sei lá, você tem que falar “firme” com ele”…

Foi uma noite terrível para mim e para a Irma…

—-“Irma, ele disse “ALGUNS”, então não vão ser TODOS…”

—-“É , tá bom, mas qual vamos escolher?”…

Claro, ficamos até a madrugada :–“esse?, não esse não”

“E esse ?”…”Também não”…

Volta tudo de novo para a caixa…Não chegamos à nenhuma decisão…

Os dias se passavam, e meu pai não dizia nada !!!

—“Ué, será que desistiu de doar os cachorrinhos?”…

Os dias se passavam, meu aniversário se aproximava  e os cachorrinhos todos lá…

Eu estava ansioso…Naquele ano estava sendo inaugurada a primeira “Escolinha Maternal” da cidade, montada por uma professora aposentada  e muito bem “avaliada” como educadora…Mas a “escolinha” só aceitava crianças com mais de SEIS anos (mesmo sendo filho do delegado…ahahahah…)…Eu estava “exultante”, até o uniforme já havia experimentado varias vezes, não via a hora de “encher” a “lancheira”, ou “merendeira” e ir para a escola…

Confesso que por uns dias fiquei umas poucas horas longe dos meus amiguinhos…

Meus pais perceberam a boa oportunidade para a “negociação”…

Aliás, um dos “premiados” seria exatamente o marido da professora dona da “escolinha”… O outro, o Sr. ÍDIO ABDALA, que era o meu “fornecedor” dos retalhos de carne e morava bem em frente à minha casa..e, o terceiro “felizardo” , por sorte, era outro “cúmplice”, o Sr. NOZOR, o farmacêutico do “Emulsão de Scot”…

Durante a “negociação”, em meio à minha euforia com a escolinha e o fato de serem pessoas minhas conhecidas, acabei cedendo…Mas, coloquei uma condição, por sugestão da Irma:… nós não escolheríamos os que seriam “doados” e nem estaríamos presentes..

Fui fazer minha matricula… eu, minha mãe e a Irma. Acho que propositalmente minha mãe resolveu fazer algumas compras no comércio. Chegamos em casa já passava das cinco da tarde… Fui direto para lugar dos “meninos”… Um choque !!!…Eu ainda não falava palavrão, se fosse hoje diria PQP !!!…Isso é traição !!! O acordo não foi cumprido, porra !!!…Fui enganado !!!…

E fui mesmo… foi a primeira “passativa” que tomei na vida… e pelo meu próprio pai e por um policial !!!…

Para meu “infortúnio”, lá estavam apenas quatro…

Mas, toda “traição” tem o seu “troco”…

Como disse, meu aniversário estava chegando…No dia 17 de março, como era hábito no interior, se encomendava o bolo de aniversário da “boleira de mão cheia”, que existe em todas as cidades…

E lá estava o lindo bolo… Me lembro ainda !!!…Era um grande moinho de vento, circundado por grande lago, cheio de cisnes… era mesmo uma “obra de arte”… O bolo chegou muito cedo e, para que nenhum “dedinho nervoso” se atrevesse, ele foi guardado na despensa…

Mesa posta, toda enfeitada, bexigas em todos os lustres, língua de sogra, apitos ensurdecedores … toda a parafernália que hoje nos levam a loucura !!!…

Chegou à hora de buscar o bolo na despensa para colocá-lo no centro da mesa…

Eu estava na porta recebendo meus coleguinhas quando ouvi um terrível grito, seguido de inúmeros “impropérios”… Corri a tempo de ver o BUG sendo enxotado, com a cara toda cheia de chantily…Chegando mais perto, vi que do meu bolo havia sobrado apenas os cisnes que eram de papelão…Diante de minha mãe enfurecida, não me contive e gargalhei até ficar de cócoras…Ahahahahhh, tá vendo?… Foi castigo… Vocês não cumpriram o acordo…nem comigo, nem com o BUG e ele se “vingou” por nós dois !!! Ahahahaha….Em um canto, a minha querida Irma deixava escapar um contido sorriso…

 

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